21 de abr. de 2010

Violência

Olah ^^

Bom para começar os posts eu escolhi este texto, que eu fiz na época do cursinho de redação. Foi para treinar uma narrativa, o tema era violência. Não, não é aquele tipo de texto que fala de super lotação de presídios, drogas, tráfico, corrupção e afins. Ele trata de uma violência silenciosa, que acontece bastante e quase ninguém vê. Gosto bastante dele e espero que vocês também gostem.


Sentia-se um inseto. Trancado naquele quarto escuro, empoeirado, sozinho, condenado a esperar as horas passarem sentado na cama. O velho álbum de fotografias apoiado nas pernas lembrava-o do passado. Passado no qual viajara com a esposa, brincara com o filho, fora seu herói, seu super-homem.
Aquele retrato, dos três sentados sob um guarda-sol em cadeiras de plástico na praia, não mostrava as duas noites que passara em claro, uma tentando acalmar o filho que, por ser a primeira viagem, não conseguia adormecer e outra com o menino nos braços, febril, porque o desobedecera e tomara muito sol. Como ele amava o “pestinha”.
O porta-retrato sobre o criado-mudo com o filho sorrindo e mostrando orgulhoso medalha ganhada no futebol, retrato que desde que fora tirado acompanhava o pai no trabalho. Somente ele sabia que atrás daquele sorriso escondiam-se noites mal dormidas pela ansiedade das partidas e todas as lágrimas copiosamente derramadas após cada derrota. O sorriso. O sorriso do menino do retrato. Como este havia mudado.
A passagem do tempo estava marcada em cada traço daquele rosto velho. O processo de deterioração do físico havia acelerado após a morte da esposa. De certa forma refletia a dilaceração de seus sentimentos.
Logo após a morte da mulher viera morar com o filho e a nora. Segundo o filho era para não ficar sozinho. Sabia, no entanto, que fora tirado às pressas de sua casa e jogado naquele quarto mal iluminado porque o comprador da casa queria mudar-se o mais rápido possível.
Desde que ali chegara tinha por companhia apenas os álbuns de fotografia e alguns velhos livros. Durante o dia a casa ficava sob os cuidados da empregada já que o filho e a nora trabalhavam. No dia em que se mudara a empregada tratou logo de avisar que não era paga para cuidar de velhotes gagás.
Certo dia a moça decidiu que a presença dele na sala atrapalhava-a na limpeza e perguntou ao patrão se poderia trancá-lo no quarto para evitar que ele sujasse onde ela já havia limpado. Como se estivesse apenas escolhendo a carne do almoço, ele disse que não havia prolemas desde que o soltasse para ir ao banheiro. Simplesmente não pôde acreditar que o seu “guri” dera aquela resposta, muito menos com tanta casualidade na voz.
Desde que passara a ficar trancafiado começou a ler os poucos livros empoeirados esquecidos em seu quarto. Era como ter amigos fiéis. Gostava, principalmente, de Gregor. Algo no sofrimento do rapaz fazia-o identificar-se.
Na calada da noite ouviu o barulho de carro estacionando em frente a casa. Escutou alguém destrancando a porta da frente. Quem entrava já era aguardado. Vozes na sala. Minutos depois a porta de seu quarto era escancarada. Com o susto, derrubara o porta-retrato, que se estilhaçou no chão. Dois homens fortes, vestidos de branco entraram e o agarraram a força. O último vislumbre do cárcere foi a foto do futebol, desfigurada pelo vidro quebrado.
O filho aguardava os homens ao lado da porta aberta. Evitou o olhar do pai enquanto este era levado para a ambulância. Quando as portas foram fechadas, ele se sentou no banquinho, tendo a certeza de que nunca mais veria seu menino.
Sentiu-se atingido pela maçã do envelhecimento. Talvez ela apodrecesse depressa e sua morte fosse menos sofrida que a do amigo Gregor Sansa. Este, aliás, ficara sobre o criado-mudo.


PS: O texto faz algumas referências ao livro A Metamorfose de Franz Kafka, que conta a historia de Gregor Sansa. Quem quiser saber mais
http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Metamorfose


o/

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